sexta-feira, 16 de fevereiro de 2018

A estrada trans-geresiana e o grande projecto mineiro no Gerês


Este também é um texto muito interessante publicado aqui no blogue pela primeira vez a 8 de Outubro de 2014.

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O Portugal do final do século XIX e princípio do século XX, apresentava-se como um país que se queria modernizar em vários aspectos. Esta modernização passava pela melhoria das redes de comunicação em todos o país com a expansão da rede ferroviária e a abertura de estradas que permitissem tornar o interior subdesenvolvido mais perto do litoral.

Já anteriormente havia feito referência ao projecto de se criar uma ligação por caminho-de-ferro entre Braga e Montalegre que passasse pelas Caldas do Gerês ou mesmo de uma ligação de eléctrico entre Braga e a vila termal. Provavelmente a par destas obras surgiu a ideia de se criar uma estrada trans-geresiana que fosse ligar a Pedra Bela às terras de Barroso. Apenas ouvi rumores sobre este imenso projecto que iria modificar por completo a paisagem da Serra do Gerês e certamente devemos dar graças pelo facto de nunca ter avançado ou caso contrário o Gerês iria transformar-se naquilo que hoje é a Serra da Estrela!

Um outro projecto que certamente iria transformar pelo menos parte da paisagem serrana, era a criação de um grande couto mineiro na Serra do Gerês. Tal como é referido no livro 'Minas dos carris - Histórias Mineiras na Serra do Gerês', este projecto surgiu em finais dos anos 80 do século XX e iria tirar partido da existência das explorações mineiras localizadas em Carris, Cidadelhe, Arrocela e Borrageiro. A estrada iria ligar o actual estradão da EDP que liga a Paradela e o Porto da Lage para a partir das proximidades da Lagoa do Marinho abrir uma estrada que passasse a Poente do Borrageiro e próximo da Corga de Arrocela, a Nascente do Alto de Cidadelhe e fosse entroncar com o estradão mineiro dos Carris junto à Ponte das Abrótegas.

Penso que os trabalhos para a abertura deste estradão chegaram a ser iniciados como se pode verificar junto à Ponte das Abrótegas e a abertura inicial do caminho terá percorrido uma certa distância até junto das Águas Chocas onde deveria «trepar» a corga em direcção a Cidadelhe. De facto, as imagens de satélite existentes no Google Earth permitem-nos observar um caminho bem definido que durante alguma distância entre as Abrótegas e as Águas Chocas segue paralelamente o estradão mineiro.

As preocupações ambientais e a intervenção do Parque Nacional da Peneda-Gerês levaram ao não seguimento deste projecto que sem dúvida iria esventrar partes importantes da área protegida.

Quem diz que o Gerês já não tem segredos escondidos?

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)
Fotografia © Google Earth

O comboio no Gerês - Um sonho do futuro ou uma memória do passado?


Hoje recordei-me deste texto que publiquei aqui no blogue pela primeira vez a 16 de Julho de 2014 e que vale a pena relembrar.

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Há já vários anos que tinha ouvido falar sobre o projecto de haver um ramal de caminho-de-ferro que saindo de Braga se ligaria às Caldas do Gerês.

De facto, existiu um projecto semelhante, que ligaria Braga às Caldas do Gerês e a Montalegre, com a linha a passar nas faldas da serra geresiana.

Com a edição do livro "Os eléctricos em Braga (1914 - 1963)" da autoria de Joaquim da Silva Gomes, voltou de novo a curiosidade de saber mais sobre este projecto ferroviário. Num país que abandonou uma grande parte das suas linhas ferroviárias a favor das auto-estradas e do volátil preço do petróleo, o projecto de desenvolvimento de uma extensa rede ferroviária em finais do Século XIX, surge quase como uma visão futurista de uma sociedade mais avançada que vencendo os lobbies do petróleo, teria desenvolvido uma rede mais economicamente eficaz e ambientalmente avançada. Porém, falo de um projecto do Século XIX e não de uma intenção de uma governação em prol do país que se queria no Século XXI. Há quem lhe chame 'progresso'...

Contactado o autor d'"Os eléctricos em Braga" sobre a questão da existência de um projecto para a construção de tal linha férrea, este indicou-me o livro "Braga e os caminhos-de-ferro", também de sua autoria, onde estariam referidos alguns dados sobre o que certamente seria uma memorável viagem entre Braga e Montalegre.

Então, sobre este projecto, Joaquim da Silva Gomes refere "Alguns dados curiosos desta proposta de lei são as linhas consideradas de segunda categoria. Estas eram linhas de via estreita que, ou estavam a ser construídas, ou estavam em vias de o ser. De entre elas, há a destacar as linhas de Bougado a Guimarães, (...), estando em Fevereiro de 1879 já construídos sete quilómetros; as linhas do Vale do Lima, que ligariam Viana do castelo, Ponte de Lima, Ponte da Barca e Lindoso, num total de sessenta quilómetros, e ainda uma outra linha, a designada "Valle do Cavado", que ligaria Braga, Caldas do Gerês e Montalegre, num total de setenta quilómetros."

Sendo este um projecto do próprio governo, era justificado "(...) com os cerca de 118 habitantes por quilómetro quadrado dos concelhos de Póvoa de Lanhoso, Terras de Bouro e Vieira do Minho, e ainda os cerca de 24 habitantes por quilómetro quadrado correspondentes ao concelho de Montalegre. Esta linha servirá ainda '...as Caldas do Gerez, notaveis pela abundancia do seu manancial e elevada temperatura das suas aguas, podendo com a facilidade de communicações tornar-se um estabelecimento importante.'"

Sem dúvida, a linha de comboio entre Braga e as Caldas do Gerês seria um projecto memorável e tornar-se-ia, a par da defunta Linha do Tua, um dos trajectos de via férrea de montanha mais interessantes da Europa.

Fotografia retirada do blogue Monumentos Desaparecidos (visitado a 16 de Fevereiro de 2018)

Trilhos seculares - Do Campo ao Bom Jesus das Mós


O dia não permitiu a subida ao Alto de Gemesura e às Casarotas na Serra Amarela, por isso o percurso foi alterado para algo diferente.

Uma caminhada em dia de lobo por entre fraguedos e terra nua envolta em lençóis de um nevoeiro que insistia em se agarrar à roupa. A saída deu-se junto da Porta do PNPG em S. João do Campo e seguimos em direcção à Pousada da Juventude de Vilarinho da Furna. Ladeamos depois a Picota encoberta por nevoeiro e seguimos ao largo do Penedo Redondo, chegando depois à estrada que nos levou ao Bom Jesus da Mó.

Depois de um pequeno repasto e de um chá quente para aquecer a alma, seguimos para a Carvalheira e passamos por Paredes, enveredando depois por um carvalhal até atingir novamente a estrada que nos levaria às imediações da Pousada da Juventude de Vilarinho da Furna e depois de volta à Porta do PNPG em S. João do Campo.

Ficam algumas fotografias do dia...























Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Paisagens da Peneda-Gerês (CCIV) - Admeus


Admeus, Serra do Gerês, a caminho de Vilar da Veiga, reflectida num espelho de água da albufeira da Caniçada.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

quinta-feira, 15 de fevereiro de 2018

Paisagens da Peneda-Gerês (CCIII) - Prado Relva


No Trilho de Germil, Serra Amarela, o Prado Relva.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

De uma lágrima... efémera


Sinto a saudade que me raspa na pele...
...e o sal que me queima a ferida aberta.
Nas noites frias de solidão quando o vento te sussurra na alma
...palavras de um conforto fugaz.
Sentes a nostalgia dos dias que se desvanecem como a luz no escuro.
A imensidão do abismo que se estende para lá de ti.
Escuro.
Sombrio.
Gélido e implacável na sua escuridão...
No momento, quando fitas o amanhã e a saudade dos dias que hão-de vir,
a lágrima que escorre... efémera no torpor do momento inconsciente.
E deslizas numa paz que te rodeia.
Calma.
Como o silêncio dos dias na montanha
No último olhar... a mágoa.
No último olhar, triste, a sombra
No último olhar... o toque
...o teu beijo. Que fica... efémero na memória dos tempos presentes.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

Paisagens da Peneda-Gerês (CCII) - O portelo


Os rústicos 'portelos', acessos nos muros de pedra solta, permitiam a entrada nas áreas de cultivo ou espaços vedados junto de muitas aldeias na área do Parque Nacional da Peneda-Gerês, neste caso na aldeia de Germil, Serra Amarela.

Fotografia © Rui C. Barbosa (Todos os direitos reservados)

terça-feira, 13 de fevereiro de 2018

Fafião - Faça Nascer uma Floresta


Dia 24 de Março, celebra-se um dia extremamente importante, o dia em que mais uma vez ousamos combater um dos maiores flagelos que tem assolado o nosso país, construindo a nossa floresta em plena área do Parque Nacional da Peneda-Gerês.

Venha fazer parte deste momento, quantos mais formos a fazer parte de algo tão útil estaremos a menorizar os estragos feitos dentro do nosso bastião Natural.

Para este evento que organizamos todos os anos o preço da inscrição é de 10€ que servem para o habitual almoço que tradicionalmente costumamos servir pela composta Massa à Vezeireiro, enraizado pela Vezeira e pela Serra do Gerês e intrinsecamente ligada à Aldeia Transmontana de Fafião.

Deixamos a página obrigatória de inscrição aqui em baixo, uma inscrição por folha. 

Histórias do povo de Cabril - Suas crenças e religiosidade e o dia 3 de Maio, o dia de Santa Cruz, o dia dedicado aos pobres


Cabril, assim como grande parte das aldeias do Barroso, foram durante séculos locais isolados, construídas sobre ermos, praticamente inacessíveis durante o Verão e alguns deixavam mesmo de o ser durante os meses de Inverno. Estes pequenos povoados pouco ou nada alteraram ao longo de centenas de anos, a sua forma de vida e o seu viver, eram povos que viviam em locais inóspitos entre fragas e pedras, encravados nas montanhas entre cursos de água, junto à florestas em zonas de difícil acesso, talvez por esse motivo o comunitário forçado e a entreajuda foi uma forma de ultrapassar todas as dificuldades com que se iam deparando e foi desse modo que conseguiram chegar com alguma vitalidade aos dias de hoje. 

Eram povos muito ligados ao sobrenatural, a natureza, viviam em constante promiscuidade com os seus animais, desenvolveram lendas e crenças, criaram mitos e benzeduras, fundiram o passado pagão com o catolicismo, aprenderam as propriedades medicinais das plantas, aprenderam a ver as horas pelo sol, a escutar os sinais da natureza, enfim aprenderam a viver onde era difícil sobreviver. Viviam na natureza e dela sabiam tirar o melhor proveito, e a respeita-la, mas sempre com a consciência que Deus tudo perdoava, mas que a natureza era implacável e nada perdoava, eram povos muito religiosos, demasiado religiosos, respeitavam os dias Santos, as trindades, não tinham a quem recorrer senão a Deus. 

Na semana da Páscoa, na Quinta-feira a partir do meio-dia em ponto, se estivessem a podar as tesouras deixavam de cantar, as enxadas deixavam de cortar terra, as gadanhas e foicinhas deixavam de tombar a erva, as vassouras deixavam de varrer, a roupa ficava por lavar, não se podia fazer terra fresca, era assim até ao meio-dia da Sexta-feira santa.

Outro dia muito importante era o 3 de Maio, o dia da Santa Cruz, que no calendário católico celebra a data da descoberta da Cruz de Cristo, em 326 por Santa Helena e ainda a recuperação da mesma Cruz por Heráclio que a reconquistou aos Persas e a levou as costas para Jerusalém, tendo a entregue ao patriarca Zacarias, no dia 3 de Maio de 630. 

Em Cabril a Santa Cruz era o dia dedicado aos pobres, aos cabaneiros, os cruzeiros e as fontes eram ornamentados de ramos verdes e flores silvestres e muito alecrim. Em casa nada se podia fazer, não se podia trabalhar com o gado, não se podia por o arado na terra, só se podia trabalhar para os pobres, se bem que não havia gente rica, mas havia sempre a mais remediada. Era o dia de ir tirar esterco, lavrar, fazer as bessadas das pessoas que não tinham animais e não tinham como trabalhar as terras, era estritamente proibido trabalhar em casa, tinha que se ir ajudar aqueles que não tinham como fazer o trabalho, e quando alguém não cumpria, havia sempre um fenómeno que acontecia, segundo a linguagem popular, ou era os arados que se partiam, ou os animais que se recusavam a trabalhar, ou então um boi que acabava sempre por se "escanhotar ".

O "ti" João da Ponte conta uma história que um vizinho dele entretanto já falecido, tinha cangado os bois para ir lavrar para um pobre, mas que ao mesmo tempo aproveitou para ir levar para ele um carro de bois carregado com esterco a barcaça, para o passar para a Grova, onde tinha um lameiro, só que ao descarregar o esterco para o barco, o carro de bois virou e foi tudo parar a barragem, e o próprio "ti João que conta :

-"ohh... pá , olha tivemos que tirar os bois com a barca, os bois ainda por cima ficaram presos pela soga, foi o cabo dos trabalhos, eu dei-lhe um grito !!! Ohh home então tu não sabes que é um dia assinalado, olha ,ele virou os olhos ao chão, nem uma nem duas,nem me respondeu, sabes é preciso ter respeito, muito respeito "...

Quanto a mim não sei o que pensar...mas que gosto muito de assim viver e desta forma de vida... Gosto.







Texto e fotografias: Ulisses Pereira

Previsão meteorológica para Nevosa / Carris (13 a 21 de Fevereiro)


Continuação dos dias de frio, chuva e neve nas Minas dos Carris.

domingo, 11 de fevereiro de 2018

6 anos após "Descendo às Minas dos Carris"


A 18 de Janeiro de 2012 publiquei pela primeira vez este vídeo que mostra uma descida num dos poços mineiros da concessão do Salto do Lobo nas Minas dos Carris.

Fica aqui de novo o vídeo para recordar essa descida realizada a 1 de Abril de 2007 bem como o texto de apresentação do vídeo.

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O vídeo que aqui podem ver representa acima de tudo uma forte vontade de descobrir e de conhecer o nosso passado histórico. Memórias presas numa época amarelecida pelo passar do tempo, a escuridão daquele poço mineiro sempre foi para mim um mistério; como que um véu negro que impedia de ver mais profundamente o que ali se escondia...

Como disse André Gago a quando da apresentação do seu "Rio Homem", a Segunda Guerra Mundial foi para Portugal um acontecimento com um preço muito alto e muito mais duradouro do que muitos podem supor. Na busca de uma vida melhor, dezenas de pessoas procuraram nas serras o sustento para uma parca existência acabando por dar origem a pequenos núcleos mineiros que com o final deste e de conflitos posteriores, ficaram esquecidos na nossa memória como nação. O mesmo aconteceu com as Minas dos Carris...

Na tentativa de saber mais, de tirar a poeira do tempo, surgiu a ideia de se explorar como nunca se tinha explorado. A forma amadora como foi feita esta filmagem deu origem a este «filme» e ao ímpeto de cada vez querer saber mais, superando as dificuldades que a falta de um título ou de um factor qualquer possa ter incrementado nesta sociedade regulada por uma mediocridade que espezinha a boa qualidade de qualquer um.

Aqui fica "Descendo às Minas dos Carris"...

Vídeo © Rui C. Barbosa

Um outro olhar (LXXXIII)


O Paulo 'No Gerês' Figueiredo visitou as Minas dos Carris a 10 de Fevereiro de 2018 e teve a amabilidade de me ceder estas fotografias desta sua visita neste dia frio e com muita gente por aquelas bandas.

Se visitar as Minas dos Carris, envie as suas fotografias para assim se constituir uma base cronológica das ruínas nos píncaros serranos do Gerês.

Um agradecimento ao Paulo pelo envio das fotos!







Fotografias © Paulo 'No Gerês' Figueiredo (Todos os direitos reservados)